Cada um tem seu próprio céu

Quando crianças, seguir os passos de nossos pais é uma realidade inevitável. Torcer pro time do coração de nossos genitores, praticar seus hobbys, frequentar seus lugares preferidos, e incontestavelmente, crer em sua religião fazem parte de nossa infância e da construção de nossa identidade.

Com o tempo, nossas descobertas e escolhas vão aflorando nossa individualidade, moldando nosso caráter e nossa personalidade. Seguir as preferências, convicções e opções dos pais não é mais necessário, e assim, nossas crenças se afirmam, entranhando em cada comportamento e postura de nossa realidade.

As celebrações assistidas com má vontade ou desinteresse não fazem mais sentido, e as distrações que dominavam todos os minutos da enfadonha cerimônia escondendo a descrença, ainda que ignorada, no sermão ouvido e na história narrada.

Adotar uma outra religião, crer em outra doutrina, ou simplesmente assumir sua condição de descrente é sempre complicado: a incerteza, o medo, a espera por reprovação. A família tradicional que prefere roboticamente domingo após domingo ouvir os mesmos sermões e as mesmas palavras que não têm mais significado nenhum, mas que por costume, hábito ou convenção, semanalmente repete os mesmos passos e os mesmos ritos, se recusa a entender e aceitar novas crenças, ou o status de ímpio.

O ceticismo se torna um crime que se tenta ocultar, nutrindo em nós a descrença não como preceito, mas como parte de nosso próprio ser, um princípio enraizado.

Demanda tempo para perceber que a fé é um dom, um privilégio de que muitos têm carência. O conforto de acreditar no ser invisível que nos ama mesmo que o mundo diga não, e que sempre há um recomeço e uma nova oportunidade, uma mão estendida na luz no final do túnel, ainda que ela pouco reluza ou insista em dissipar.

Não crer é um ato solitário, porém, provoca um senso crítico apurado. Buscamos discernir o justo e o correto, entretanto, a pior face do homem mostra-se presente e firme em cada esquina de nosso caminho. Em carne e osso.

Quem crê tem algo a que se apegar nos momentos de aflição ou desespero, enquanto o desprovido de fé pode fazer a única coisa que está ao seu alcance: valorizar o hoje. Não desperdiçar sua breve existência, e por mais que tenha consciência de que não existe uma segunda chance, acreditar que na vida a gente colhe o que se planta.

É possível demonstrar compaixão e amor ao próximo sem sermos doutrinados a crer nesta ou naquela religião, ao contrário do que muitos pensam, os descrentes embora não creiam na existência de divindades, nem por isso são adoradores de forças ocultas.

Dois pesos, duas medidas. A certeza não existe, e o preço que se paga ao tentar descobrir é um caminho sem respostas. O espírito se inquieta, mas a visão se aguça. Cabe a cada um refletir se esse preço é justo, considerando que a realidade de cada um só diz respeito a si mesmo.

Por tudo se morre, por pouco se vive. Não há certo, nem errado, e praticar o bem independe de crença ou religião. A vida seria muito mais fácil se vivêssemos de contos de fadas, mas até o mal nessas narrativas merecem perdão.