A necessidade de ir embora

A geração atual é talvez a mais cheia de si que já existiu. As pessoas, de modo geral, se dão mais importância do que realmente significam. Acham-se as tais, os maiorais, e, muitas vezes, insubstituíveis.

São também acomodadas, abrigam-se atrás de uma tela de celular, protegidos sob seus perfis nas redes sociais, e vociferam aos quatro cantos suas opiniões sobre questões que não lhe dizem respeito, porém, não se arriscam, nem ousam em progressos para suas próprias vidas.

Adiam seus sonhos, permanecem em relacionamentos ou empregos enfadonhos, participam de grupos que não acrescentam nada em suas vidas, mas acreditam demasiadamente que sua presença é significativa e relevante demais para simplesmente irem embora.

Protelam o intercâmbio ou a mudança para outro país por preocupação excessiva. Antecipadamente inquietam-se com a saudade da família, com o rompimento de um namoro, ou a distância dos amigos.

É preciso olhar a situação de outro ângulo, com outra concepção: as dúvidas sempre existirão, aqui, na Ásia ou em Belo Horizonte. E se nos agarrarmos demais a elas, o tempo vai passar, e as oportunidades também. Nada é cem por cento garantido nesse mundo.

Uma lição que temos que aprender é que nem todo amor abrasador irá durar a vida inteira, que os amigos de verdade sempre estarão conosco, esteja onde estivermos. Que nossa família nunca deixará de nos amar, e sempre será nosso porto seguro. Então, às vezes, é necessário ir embora.

Ir embora é essencial para que alguns ensinamentos sejam assimilados. Que não somos assim tão importantes, e que a vida segue, com ou sem a gente por perto. Ninguém precisa de nós para continuar vivendo, nem nossa mãe, nem nosso pai, nem nosso companheiro(a), nem nosso chefe. E é libertador perceber isso.

É necessário ir embora para constatarmos que temos uma noção bem distorcida de nossa importância na vida alheia: não somos insubstituíveis, nem indispensáveis.

É necessário ir embora para que enxerguemos que, embora trocáveis, somos importantes também. Seja por cinco minutos, ou cinco anos, nossos amigos e famílias sentirão a nossa falta. E não é porque estamos longe que irão sentir mais ou menos, apenas irão sentir por mais tempo.

Não é porque fomos embora, que deixarão de nos amar. Sempre haverá aquele seleto grupo que lembrará de nosso aniversário, onde quer que a gente esteja, que sentirá saudades e que esboçará um sorriso quando pensar em nós.

Então, vamos embora. Embora do emprego que detestamos, do relacionamento que nos sufoca, do grupo de amigos que só nos procura quando convém. Embora da casa dos pais, da cidade, do país. Vamos embora da sala, por minutos, anos ou pela vida toda.