As voltas que as histórias dão antes de acontecerem

Por alguma razão que desconhecemos, algumas histórias precisam acontecer. E mesmo quando tudo e todos se colocam contra sua ocorrência, inclusive nós mesmos, elas simplesmente vencem. Algumas histórias não deixam de transformar as ruínas das batalhas anteriores em perspectivas completamente novas.

Algumas histórias dão voltas antes de realmente acontecerem. No começo, tudo é difícil, as coisas não fluem, não transcorrem — apenas ficam ali, imóveis. Em algumas histórias existem mais dúvidas que certezas, mais perguntas que respostas, mais sentimentos confusos que garantias bem definidas.

Algumas histórias são compostas por mais caos que harmonia, mais complexidade que calmaria, mais revolta que plenitude. Algumas histórias nos fazem sofrer, chorar, arrancam sangue de nossas vísceras. E nessas voltas antes de acontecerem, envolvem outros sentimentos, outras pessoas, outros anseios, outras expectativas, outros planos.

Algumas histórias nos causam hematomas psicológicos e provocam incertezas tão profundas que quase inviabilizam qualquer começo — afinal, todo início é difícil, angustiante e sombrio. Algumas histórias dão voltas antes de acontecerem e deixam marcas doloridas e intensas na alma. E sobreviver a elas é um ato de coragem e sublimidade afetiva.

Mas, por alguma razão, mesmo assim elas acontecem. Mesmo que contrariem todas as previsões e probabilidades daqueles que assistiram de camarote todas as quedas e declínios vividos antes do início.

Às vezes negamos o que mais desejamos porque algumas escolhas exigem grandes transformações, tanto exteriores como interiores. Algumas escolhas nos tiram da zona de conforto de uma maneira feroz e nos obrigam a enxergar tudo àquilo que tentamos esconder de nós mesmos. Algumas escolhas requerem uma profunda renovação interior — e não existe nada mais difícil nessa vida que trocar a pele da alma.

Sim, algumas vezes optamos por relacionamentos, carreiras e situações medianas porque não sabemos voar alto. Ou porque não reconhecemos o nosso valor. Ou porque tememos a queda. Ou simplesmente porque tememos o julgamento alheio e, principalmente, o nosso. Bobeira. Acredite no que te faz feliz, agarre os sonhos com todas as suas forças e, mais do que tudo, confie que algumas histórias precisam acontecer — mesmo que elas deem algumas voltas antes disso.

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À beira do precipício

Aquele sol de Cancun queimando em seus olhos. Você observa tudo ao seu redor e contempla aquela vista panorâmica, paradisíaca — quase sagrada. Nesse momento, tudo fica para trás e nada mais importa: você olha para ela e tudo parece pegar fogo.

Um sentimento impregnado tão fundo na alma que mais se assemelha a um tesouro arcaico que se entranhou pouco a pouco em seu íntimo — e mudou para sempre as suas vidas. Um afeto tão valioso quanto ouro que fez você encontrar nela uma luz que ninguém sabia que existia.

E daí em diante os dias sempre foram ensolarados. Não importava se lá fora caía uma tempestade torrencial, se o mundo estava prestes a se acabar ou se o inverno estava rigoroso demais; dentro de vocês a previsão do tempo era sempre de tempo aberto, nuvens claras e sorrisos que começavam nos olhos e terminavam nos lábios.

Mas você preferiu ficar na superfície, quando tudo que restava era mergulhar fundo. Até quando vai tentar preencher esse vazio? Deixou para lá um sentimento atemporal que começou em outras vidas e tentou tocar o chão enquanto a cabeça permanecia nas nuvens.

Se soubessem que seria a última vez, um dos dois teria partido o coração no meio na tentativa de salvar a outra parte, pois o mundo continua girando, mas nenhum dos dois sai do lugar.

E aí você se vê engasgado, sem conseguir encontrar ou mencionar as palavras. Você só sabe que toda vez que se despedem, machuca. O coração aperta, acelera e fica pequenininho — tudo ao mesmo tempo. Como amantes da noite ou poetas inspirados, tudo o que vocês realmente sabem é que um está aonde o outro quer ir.

Quando o sol se pôr, as luzes se apagarem e a banda parar de tocar, você sempre se lembrará dela desse jeito. Quando o mundo inteiro desaparecer, ela sempre se lembrará de vocês dois desse jeito. A parte sua que é ela, nunca vai morrer. A parte dela que é você, sempre irá viver.

Não vire a página antes de aprender a lição

Eu não gosto de conselhos clichês. Daqueles prontinhos e estereotipados que todo mundo repete sem pensar na bobagem gigantesca que está proferindo. A pessoa acabou de se separar, foi demitida ou descobriu que seu melhor amigo era mais compadre da onça que seu e vem algum pagão dizer: “esquece isso, vira a página”.

Perfeito. Como não pensei nisso antes? Só um minuto que vou ali lavar o rosto, fazer uma lavagem cerebral e zerar o cronômetro. Assim fico apta para ouvir os seus problemas, aqueles que realmente importam.

Tem uma coisa que se ninguém notou até agora, está na hora de notar: a vida nos cobra aprendizagem. E cobra mesmo, como aquela professora particular, que nossa mãe contratou a peso de ouro para nos ensinar matemática. Enquanto não se aprende, a lição será repetida. Mudam os cenários, mudam os personagens, mas a matéria é sempre igual.

Sabe aquele amigo fantástico que nos causa pena porque não para em emprego nenhum? Tão inteligente, tão capaz e afirma que existe uma teoria da conspiração contra ele.

Mas um dia nos tornamos o colega da mesa ao lado e descobrimos que incapacidade é seu sobrenome. E o fulano vai virando as páginas da carteira de trabalho, sem humildade para aceitar que a única teoria da conspiração é sua auto sabotagem.

Em relacionamentos não é muito diferente. Quem não conhece alguém que, uma semana depois de um término, já estava vociferando aos quatro cantos que tinha virado a página? E quinze dias depois já estava com outro parceiro e a vida estava seguindo seu curso de novo. Sim, a pessoa pode até ter virado a página. Para trás.

Seja em que situação for, é sempre bom reler o capítulo. Revisitar alegrias e tristezas, tentando tirar a maldita lente cor de rosa que, em tempos de ruptura, teima em filtrar momentos ruins e nos entrega somente lembranças boas.

Chorar todas as lágrimas, entender a culpa que nos cabe em cada história e dar aquele pulinho no fundo do poço. Porque é dali que tiramos o impulso para emergir. E ao voltar à superfície nós já não seremos mais os mesmos. E aí sim é hora de virar a página para escrever outra história, com mais chances de ter um final feliz.

Manifesto pelas mulheres

Diante de um universo globalizado, conduzido pelos princípios do consumismo, da inovação e dos mais modernos recursos tecnológicos, ainda nos deparamos constantemente com diversos comportamentos arcaicos e inadequados em nossa sociedade.

Basta uma espiada despretensiosa pelos mais variados convívios ou práticas cotidianas para esbarrarmos em situações ultrapassadas e repugnantes como o preconceito, a discriminação e a intolerância — seja ela qual for. Mas hoje, o alerta é direcionado para as inúmeras formas de violência contra a mulher.

Talvez não exista nada ainda que não tenha sido dito sobre sua importância, mas precisamos reforçar a coragem, a determinação e a poesia com que o público feminino luta diariamente para conviver em um mundo impregnado de achismos e machismos prepotentes, frequentemente associados a uma ilusória fragilidade.

Ilusória, pois nem no mais profundo esforço é possível imaginar quantas dores, angústias, decepções e sofrimentos as mulheres enfrentam todos os dias em suas vidas pessoais e profissionais.

Quantas provas diárias elas precisam dar para comprovar sua eficiência, competência e suficiência para uma sociedade que ainda duvida de sua capacidade apenas por ser mulher. Que não aceita que um ser constantemente associado à inferioridade conquiste cargos elevados nas empresas ou que sejam donas do próprio nariz — e consequentemente, do próprio destino.

Uma sociedade que pune mulheres apenas por serem bonitas ou vaidosas. Que as obriga a trocarem de roupa, limparem a maquiagem e prenderem o cabelo. Que as submetem as mais diversas formas de humilhação porque “mulher tem que se dar ao respeito”. E o respeito alheio, onde fica?

Já passou da hora da sociedade reconhecer a importância vinda de uma figura que não é apenas responsável por conceber a vida, mas também, por apresentar o verdadeiro significado do mais autêntico sentimento — o amor.

Se não fosse a mulher, o homem seria apenas uma passagem insignificante na história. Portanto, nada mais justo do que celebrar toda e qualquer inspiração causada por sua presença.

Nada de migalhas e justiças restituídas em prestações. Nada de violência elevada e assumida por alguma posição de poder imaginário. Nada de tratá-las como mercadoria, objeto ou coisa descartável. Nada de invadir o corpo alheio sem a devida autorização apenas para satisfazer o desejo selvagem e primitivo.

Nada de se infantilizar quando a saia, o vestido ou outro traje estiver esculpido nas curvas e traços daquela que merece o mais profundo respeito, independentemente da soma e crescente desejo que você, homem, sonhe em ter.

Não precisa colocá-las em um pedestal, basta caminharem lado a lado, na mesma superfície e com igualdade de direitos. Pois sem elas, o mundo seria monótono, o tempo seria melancólico e os corações ficariam opacos, sem poesia e melodia.

A imagem feminina deve ser protegida e respeitada, por isso, não importa o quanto homens e mulheres sejam diferentes nos trejeitos, caráter e comportamento, a mulher é a morada existencial e o homem mero aprendiz e observador de sua confiança, ímpeto e plenitude.

 

Ressignificar é preciso

Talvez não exista nada mais necessário do que desenvolvermos a capacidade de ressignificar as nossas vidas.  Todos nós passamos por traumas, decepções e sofrimentos — afinal, dramas e tragédias fazem parte da existência humana.

Além das perdas, angústias e inquietações, ainda precisamos lidar com uma série de imposições e cobranças sociais que vão, pouco a pouco, reduzindo a liberdade das nossas escolhas e a autenticidade de nosso jeito de ser e viver — e o resultado é uma eterna anulação de nossos sonhos, desejos e anseios.

Por isso, saber dar novos significados as experiências dolorosas que vivenciamos é fundamental para aqueles que desejam desenvolver uma vida emocional mais equilibrada. E as definições que damos a todos os acontecimentos de nossas vidas dependem do filtro pelo qual os vemos.

A visão que possuímos a respeito de nossos problemas, ocorrências e eventos cotidianos é o que define a capacidade que temos de sermos felizes. Decepções amorosas, fracassos profissionais ou problemas de saúde podem representar verdadeiras tragédias em nossas vidas, no entanto, também podem ser encaradas como uma oportunidade para ressignificar a nossa existência.

Na prática, isso significa dar um novo sentido ou uma nova definição para essas situações que, antes encaradas como o fim do mundo, agora podem representar uma nova chance para conseguirmos enxergar que temos o poder sobre nossas escolhas e entendermos que somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade.

É preciso enxergar a vida da maneira que queremos vê-la. Saber que todos os dias são únicos e que podemos fazê-los bons mesmo quando não são. Entender que fracassar é inevitável, errar é humano, mas é fundamental aprendermos algumas lições com as nossas falhas para podermos acertar no futuro.

Só perdemos o controle quando admitimos nossa ausência de poder sobre ele. Então, sejamos capazes de nos permitir sofrer, chorar e se arrepender, mas que o processo de lamúria seja cada vez mais breve. E que, de hoje em diante, possamos buscar todos os dias a nossa felicidade — mesmo que tudo dê errado nesse processo.

Hoje é o dia!

O tempo que me habita não é o tempo das coisas. Elas têm um tempo próprio. Começam, terminam e nos transformam durante esse intervalo, num ritmo que é só delas — assim como as estações do ano. Fenômeno parecido ocorre com as árvores, impressionante como conseguem superar os rígidos invernos.

Admiro a paciência do carvalho e a inflexibilidade dos pinheiros. As coisas têm a compreensão exata e profunda da hora certa e esperam com paciência a chegada do horário marcado — assim como as árvores. É que elas vivem a eternidade do tempo certo, nem antes nem depois.

Olhar o presente de frente é saber que só ele existe. É viver na finitude, sempre no limite daquilo que escorre pelos dedos. É se admirar sobre como o tempo passa e o quanto pode ser perturbador lembrar o tempo todo que tudo, absolutamente tudo, passa. Menos o tempo das coisas.

O tempo das coisas é eterno. Mesmo que a gente não esteja mais presente, que tenha decidido ir embora e deixar alguém para trás ou quando resolve abandonar tudo com um imenso desejo de sair pelo mundo e recomeçar.

Nesses momentos o tempo das coisas continua lá, esperando para nos colocar de volta em nosso devido lugar. Quando saímos, deixamos no outro o tempo de nossa ausência — nunca de nosso retorno. Afinal, a volta é sempre mais rápida. E tudo fica mais fácil quando a gente já conhece o caminho.

Mas é importante lembrar que é preciso retornar no momento certo, pois, se a gente esperar demais, vai se dar conta de que ficou tarde demais. Aí o que nos resta é perambular pelas dobras do tempo, se arrepender pelo tempo perdido e de nossa incapacidade em aprender o ritmo do mundo.

Porque o tempo, o tempo é tudo o que temos. O tempo das coisas que duram ou das coisas que terminam. O tempo voa e não espera por ninguém. O tempo cura todos os males. E quando não há o que esperar, o tempo aquieta. Paralisa.

Tudo que nós queremos na vida é mais tempo. Tempo para errar, aprender, perdoar, acreditar, recomeçar. E na vida existe tempo para tudo. Tempo de levantar. De crescer. De abrir mão. Tempo.

Quem cultiva expectativas colhe decepções

Faz parte do nosso amadurecimento compreendermos que não é saudável projetar expectativas nas outras pessoas. Desde a infância criamos esperanças de que nossas necessidades sejam atendidas e de que nossos desejos sejam realizados por quem nos rodeia. Parece fazer parte de nossa natureza embalar a esperança de que tudo vai dar certo, de que as pessoas nos farão felizes e de que todos os nossos sonhos serão atendidos. Infelizmente, a vida tende a nos lembrar de que teremos um longo caminho de decepções e tropeços pela frente, pois nada é fácil, nada vem fácil.

Diariamente, nossa jornada estará sujeita a ventos e tempestades, a desvios escuros que irão esmorecer nossos ânimos. Problemas fazem parte da vida de todos nós e sua solução dependerá da clareza de nossos sentimentos em relação ao que deve ser feito. É importante estarmos preparados para as adversidades que bagunçarão nos espaços e enfrentarmos os obstáculos com equilíbrio e sabedoria.

Muitos de nós temos como hábito esperar sempre o melhor das pessoas, confiando que herdaremos o que doamos na mesma medida e que a sinceridade será a base dos relacionamentos que cultivamos. Infelizmente, nem todo mundo dispõe de reciprocidade e de gratidão para restituir dedicação na mesma proporção com que as recebe.

Nem sempre as nossas verdades serão as corretas e raramente as pessoas terão os mesmos propósitos que os nossos. É preciso observar os outros com um olhar isento de idealizações, deixando de basear nossas constatações naquilo que acreditamos ser o mais verdadeiro.

Não cultive esperanças de que as pessoas serão gratas pelo que você faz por elas, nem que reconhecerão sua dedicação, consideração ou seus esforços em torná-las felizes. Muitas simplesmente esquecerão tudo na primeira oportunidade, outras irão lhe cobrar muito mais, enquanto algumas irão substituir suas amizades por outras mais vantajosas.

É preciso atenção aos sinais que as pessoas nos emitem, através de atitudes, expressões e comportamentos, pois são as ações que espelham o que somos e não os discursos. Esperar do outro aquilo que está dentro de nós inevitavelmente irá ocasionar uma série de decepções que em nada nos beneficiará. A impiedosa realidade é que somos os únicos responsáveis por nossas vidas, pelas nossas dores e alegrias. Isto é, podemos confiar sim, mas em ninguém mais do que de nós mesmos.

 

De repente 30

Toda idade tem seu charme. Toda época da vida tem suas particularidades, imperfeições e virtudes. Mas há dois momentos de nossa existência que parecem se sobressair mais que os demais: os 20 e os 30 anos.

Quando temos 20 anos, qualquer estrada é oportuna. Mesmo que ela seja de terra, cheia de buracos e não vá a lugar nenhum. Aos 20 anos o que vale é a experiência, mesmo que o pneu fure, a gasolina acabe ou o carro quebre. Já aos 30, sabemos identificar a melhor estrada, ou pelo menos estaremos preparados para a viagem. O porta-malas estará cheio de bagagem, o tanque de combustível estará cheio e haverá um mapa no porta-luvas; no mínimo o celular estará com a bateria carregada. Aos 30 anos o destino importa sim, e muito.

Quando temos 20 anos, possuímos um grande estoque de paciência com nossos próprios erros, pois ainda dá tempo. Dá tempo de trocar de curso na faculdade, de mudar de emprego, de viajar o mundo ou encontrar um grande amor. Aos 30 anos, analisamos cada proposta de trabalho, pesamos os prós e os contras antes de mudar de carreira, e antes de marcar uma viagem para outro país, esperamos a cotação do dólar baixar.

No entanto, aos 20 anos o fardo de pertencer a um grupo é mais pesado, seguir os padrões da sociedade importa muito e ainda não possuímos independência financeira. Já aos 30, somos mais livres. Se as nossas decisões não agradam a todos, paciência. Se não queremos ir a determinado evento social, não vamos e pronto. Se não desejamos algo que todos querem, o problema é só nosso.

Aos 20 anos, se o telefone não toca, a mensagem não chega ou se o relacionamento termina, parece que é o fim do mundo. Não temos discernimento para identificar as mentiras, as ciladas e as máscaras que os outros usam. Aos 30, já conseguimos reconhecer as más intenções por trás dos sorrisos dissimulados e os fingimentos tão frequentes de nosso cotidiano. Não há paciência para convivermos com quem é de mentira. Se o relacionamento termina, choramos o fim dele, mas ao mesmo tempo, nos preparamos para errar menos no próximo.

Aos 20 anos colecionamos dezenas de colegas que chamamos de amigos. Aos 30, temos um seleto grupo de pessoas que jamais abriremos mão, e que nos acompanharão por toda nossa jornada. Se aos 20 estamos em busca de construir nossa identidade, aos 30 já estabelecemos residência e temos plena confiança e certeza de quem somos. Aos 20 por tudo se morre; aos 30 a vida está só começando.

Cada um tem seu próprio céu

Quando crianças, seguir os passos de nossos pais é uma realidade inevitável. Torcer pro time do coração de nossos genitores, praticar seus hobbys, frequentar seus lugares preferidos, e incontestavelmente, crer em sua religião fazem parte de nossa infância e da construção de nossa identidade.

Com o tempo, nossas descobertas e escolhas vão aflorando nossa individualidade, moldando nosso caráter e nossa personalidade. Seguir as preferências, convicções e opções dos pais não é mais necessário, e assim, nossas crenças se afirmam, entranhando em cada comportamento e postura de nossa realidade.

As celebrações assistidas com má vontade ou desinteresse não fazem mais sentido, e as distrações que dominavam todos os minutos da enfadonha cerimônia escondendo a descrença, ainda que ignorada, no sermão ouvido e na história narrada.

Adotar uma outra religião, crer em outra doutrina, ou simplesmente assumir sua condição de descrente é sempre complicado: a incerteza, o medo, a espera por reprovação. A família tradicional que prefere roboticamente domingo após domingo ouvir os mesmos sermões e as mesmas palavras que não têm mais significado nenhum, mas que por costume, hábito ou convenção, semanalmente repete os mesmos passos e os mesmos ritos, se recusa a entender e aceitar novas crenças, ou o status de ímpio.

O ceticismo se torna um crime que se tenta ocultar, nutrindo em nós a descrença não como preceito, mas como parte de nosso próprio ser, um princípio enraizado.

Demanda tempo para perceber que a fé é um dom, um privilégio de que muitos têm carência. O conforto de acreditar no ser invisível que nos ama mesmo que o mundo diga não, e que sempre há um recomeço e uma nova oportunidade, uma mão estendida na luz no final do túnel, ainda que ela pouco reluza ou insista em dissipar.

Não crer é um ato solitário, porém, provoca um senso crítico apurado. Buscamos discernir o justo e o correto, entretanto, a pior face do homem mostra-se presente e firme em cada esquina de nosso caminho. Em carne e osso.

Quem crê tem algo a que se apegar nos momentos de aflição ou desespero, enquanto o desprovido de fé pode fazer a única coisa que está ao seu alcance: valorizar o hoje. Não desperdiçar sua breve existência, e por mais que tenha consciência de que não existe uma segunda chance, acreditar que na vida a gente colhe o que se planta.

É possível demonstrar compaixão e amor ao próximo sem sermos doutrinados a crer nesta ou naquela religião, ao contrário do que muitos pensam, os descrentes embora não creiam na existência de divindades, nem por isso são adoradores de forças ocultas.

Dois pesos, duas medidas. A certeza não existe, e o preço que se paga ao tentar descobrir é um caminho sem respostas. O espírito se inquieta, mas a visão se aguça. Cabe a cada um refletir se esse preço é justo, considerando que a realidade de cada um só diz respeito a si mesmo.

Por tudo se morre, por pouco se vive. Não há certo, nem errado, e praticar o bem independe de crença ou religião. A vida seria muito mais fácil se vivêssemos de contos de fadas, mas até o mal nessas narrativas merecem perdão.

Game over

 

Não é preciso muita análise para reconhecer o quanto é difícil admitir quando algo nos afeta. Mais árduo ainda é olhar para dentro de si e compreender que nem tudo precisa ser levado tão a sério.

Vivemos em uma época em que está na moda praticar o desapego. A modernidade líquida citada por Bauman é seguida por muitos como se fosse uma religião, partido político ou time do coração.

Vivemos tempos líquidos, onde as relações escorrem como água por entre os dedos das mãos. Nada é feito para durar. Tudo é motivo para desapegar.

Sendo assim, num relacionamento moderno, o primeiro a demonstrar emoção é visto como o elemento frágil. E nessa disputa, o vencedor é aquele que não sente, que não se comove, nem se emociona.

Com isso, muitos usam escudos emocionais para não serem atingidos, recolhem-se em sua ordinária insígnia, e lá ficam, protegidos e inalcançáveis.

Estamos protegidos sim, mas a quê preço? As barreiras e muralhas que construímos ao redor para nossa segurança, no final de tudo, irão escancarar a nós mesmos que não estamos protegidos, mas sim, sozinhos do outro lado do muro.

Nada é mais exaustivo do que ter ao lado alguém que vive para se proteger de ataques imaginários. Cada momento junto é um dia de combate. As palavras têm que ser bem pensadas antes de serem ditas, uma vez que qualquer frase mal colocada será transformada num campo de batalha.

Quem está disposto a engatar um relacionamento, tem que se livrar desses joguinhos. Se não, as particularidades e o encanto do início se perderão em meio a tantos tiroteios.

O que antes causava borboletas no estômago e frio na barriga, depois de um tempo se tornam suspiros impacientes e eternas reviradas de olhos.

A paz só é possível de ser alcançada quando a comunicação flui com facilidade. E conversa no sentido mais legítimo da palavra, não indiretas e sarcasmos.

Tudo pode e deve ser mais simples. Bateu saudade? É só dizer. Não precisa se isolar até que o outro perceba a distância e decida fazer algo. Toda essa espera só irá aumentar a agonia e mandar para longe quem já estava ao seu lado.

Não é preciso toda essa artimanha, simplesmente faça o que tem vontade independente se isso pode te deixar numa situação de vulnerabilidade. Em tempos de desapego, quem ousa demonstrar os sentimentos é vanguardista, não fraco.

É hora de abandonar as munições, de sermos sinceros com nossos sentimentos e nos libertarmos das barreiras que construímos ao nosso redor. Sem joguinhos, sem obstáculos e, principalmente, sem transformar amores simples em missões impossíveis.