Hoje é o dia!

O tempo que me habita não é o tempo das coisas. Elas têm um tempo próprio. Começam, terminam e nos transformam durante esse intervalo, num ritmo que é só delas — assim como as estações do ano. Fenômeno parecido ocorre com as árvores, impressionante como conseguem superar os rígidos invernos.

Admiro a paciência do carvalho e a inflexibilidade dos pinheiros. As coisas têm a compreensão exata e profunda da hora certa e esperam com paciência a chegada do horário marcado — assim como as árvores. É que elas vivem a eternidade do tempo certo, nem antes nem depois.

Olhar o presente de frente é saber que só ele existe. É viver na finitude, sempre no limite daquilo que escorre pelos dedos. É se admirar sobre como o tempo passa e o quanto pode ser perturbador lembrar o tempo todo que tudo, absolutamente tudo, passa. Menos o tempo das coisas.

O tempo das coisas é eterno. Mesmo que a gente não esteja mais presente, que tenha decidido ir embora e deixar alguém para trás ou quando resolve abandonar tudo com um imenso desejo de sair pelo mundo e recomeçar.

Nesses momentos o tempo das coisas continua lá, esperando para nos colocar de volta em nosso devido lugar. Quando saímos, deixamos no outro o tempo de nossa ausência — nunca de nosso retorno. Afinal, a volta é sempre mais rápida. E tudo fica mais fácil quando a gente já conhece o caminho.

Mas é importante lembrar que é preciso retornar no momento certo, pois, se a gente esperar demais, vai se dar conta de que ficou tarde demais. Aí o que nos resta é perambular pelas dobras do tempo, se arrepender pelo tempo perdido e de nossa incapacidade em aprender o ritmo do mundo.

Porque o tempo, o tempo é tudo o que temos. O tempo das coisas que duram ou das coisas que terminam. O tempo voa e não espera por ninguém. O tempo cura todos os males. E quando não há o que esperar, o tempo aquieta. Paralisa.

Tudo que nós queremos na vida é mais tempo. Tempo para errar, aprender, perdoar, acreditar, recomeçar. E na vida existe tempo para tudo. Tempo de levantar. De crescer. De abrir mão. Tempo.

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Quem cultiva expectativas colhe decepções

Faz parte do nosso amadurecimento compreendermos que não é saudável projetar expectativas nas outras pessoas. Desde a infância criamos esperanças de que nossas necessidades sejam atendidas e de que nossos desejos sejam realizados por quem nos rodeia. Parece fazer parte de nossa natureza embalar a esperança de que tudo vai dar certo, de que as pessoas nos farão felizes e de que todos os nossos sonhos serão atendidos. Infelizmente, a vida tende a nos lembrar de que teremos um longo caminho de decepções e tropeços pela frente, pois nada é fácil, nada vem fácil.

Diariamente, nossa jornada estará sujeita a ventos e tempestades, a desvios escuros que irão esmorecer nossos ânimos. Problemas fazem parte da vida de todos nós e sua solução dependerá da clareza de nossos sentimentos em relação ao que deve ser feito. É importante estarmos preparados para as adversidades que bagunçarão nos espaços e enfrentarmos os obstáculos com equilíbrio e sabedoria.

Muitos de nós temos como hábito esperar sempre o melhor das pessoas, confiando que herdaremos o que doamos na mesma medida e que a sinceridade será a base dos relacionamentos que cultivamos. Infelizmente, nem todo mundo dispõe de reciprocidade e de gratidão para restituir dedicação na mesma proporção com que as recebe.

Nem sempre as nossas verdades serão as corretas e raramente as pessoas terão os mesmos propósitos que os nossos. É preciso observar os outros com um olhar isento de idealizações, deixando de basear nossas constatações naquilo que acreditamos ser o mais verdadeiro.

Não cultive esperanças de que as pessoas serão gratas pelo que você faz por elas, nem que reconhecerão sua dedicação, consideração ou seus esforços em torná-las felizes. Muitas simplesmente esquecerão tudo na primeira oportunidade, outras irão lhe cobrar muito mais, enquanto algumas irão substituir suas amizades por outras mais vantajosas.

É preciso atenção aos sinais que as pessoas nos emitem, através de atitudes, expressões e comportamentos, pois são as ações que espelham o que somos e não os discursos. Esperar do outro aquilo que está dentro de nós inevitavelmente irá ocasionar uma série de decepções que em nada nos beneficiará. A impiedosa realidade é que somos os únicos responsáveis por nossas vidas, pelas nossas dores e alegrias. Isto é, podemos confiar sim, mas em ninguém mais do que de nós mesmos.

 

De repente 30

Toda idade tem seu charme. Toda época da vida tem suas particularidades, imperfeições e virtudes. Mas há dois momentos de nossa existência que parecem se sobressair mais que os demais: os 20 e os 30 anos.

Quando temos 20 anos, qualquer estrada é oportuna. Mesmo que ela seja de terra, cheia de buracos e não vá a lugar nenhum. Aos 20 anos o que vale é a experiência, mesmo que o pneu fure, a gasolina acabe ou o carro quebre. Já aos 30, sabemos identificar a melhor estrada, ou pelo menos estaremos preparados para a viagem. O porta-malas estará cheio de bagagem, o tanque de combustível estará cheio e haverá um mapa no porta-luvas; no mínimo o celular estará com a bateria carregada. Aos 30 anos o destino importa sim, e muito.

Quando temos 20 anos, possuímos um grande estoque de paciência com nossos próprios erros, pois ainda dá tempo. Dá tempo de trocar de curso na faculdade, de mudar de emprego, de viajar o mundo ou encontrar um grande amor. Aos 30 anos, analisamos cada proposta de trabalho, pesamos os prós e os contras antes de mudar de carreira, e antes de marcar uma viagem para outro país, esperamos a cotação do dólar baixar.

No entanto, aos 20 anos o fardo de pertencer a um grupo é mais pesado, seguir os padrões da sociedade importa muito e ainda não possuímos independência financeira. Já aos 30, somos mais livres. Se as nossas decisões não agradam a todos, paciência. Se não queremos ir a determinado evento social, não vamos e pronto. Se não desejamos algo que todos querem, o problema é só nosso.

Aos 20 anos, se o telefone não toca, a mensagem não chega ou se o relacionamento termina, parece que é o fim do mundo. Não temos discernimento para identificar as mentiras, as ciladas e as máscaras que os outros usam. Aos 30, já conseguimos reconhecer as más intenções por trás dos sorrisos dissimulados e os fingimentos tão frequentes de nosso cotidiano. Não há paciência para convivermos com quem é de mentira. Se o relacionamento termina, choramos o fim dele, mas ao mesmo tempo, nos preparamos para errar menos no próximo.

Aos 20 anos colecionamos dezenas de colegas que chamamos de amigos. Aos 30, temos um seleto grupo de pessoas que jamais abriremos mão, e que nos acompanharão por toda nossa jornada. Se aos 20 estamos em busca de construir nossa identidade, aos 30 já estabelecemos residência e temos plena confiança e certeza de quem somos. Aos 20 por tudo se morre; aos 30 a vida está só começando.

Cada um tem seu próprio céu

Quando crianças, seguir os passos de nossos pais é uma realidade inevitável. Torcer pro time do coração de nossos genitores, praticar seus hobbys, frequentar seus lugares preferidos, e incontestavelmente, crer em sua religião fazem parte de nossa infância e da construção de nossa identidade.

Com o tempo, nossas descobertas e escolhas vão aflorando nossa individualidade, moldando nosso caráter e nossa personalidade. Seguir as preferências, convicções e opções dos pais não é mais necessário, e assim, nossas crenças se afirmam, entranhando em cada comportamento e postura de nossa realidade.

As celebrações assistidas com má vontade ou desinteresse não fazem mais sentido, e as distrações que dominavam todos os minutos da enfadonha cerimônia escondendo a descrença, ainda que ignorada, no sermão ouvido e na história narrada.

Adotar uma outra religião, crer em outra doutrina, ou simplesmente assumir sua condição de descrente é sempre complicado: a incerteza, o medo, a espera por reprovação. A família tradicional que prefere roboticamente domingo após domingo ouvir os mesmos sermões e as mesmas palavras que não têm mais significado nenhum, mas que por costume, hábito ou convenção, semanalmente repete os mesmos passos e os mesmos ritos, se recusa a entender e aceitar novas crenças, ou o status de ímpio.

O ceticismo se torna um crime que se tenta ocultar, nutrindo em nós a descrença não como preceito, mas como parte de nosso próprio ser, um princípio enraizado.

Demanda tempo para perceber que a fé é um dom, um privilégio de que muitos têm carência. O conforto de acreditar no ser invisível que nos ama mesmo que o mundo diga não, e que sempre há um recomeço e uma nova oportunidade, uma mão estendida na luz no final do túnel, ainda que ela pouco reluza ou insista em dissipar.

Não crer é um ato solitário, porém, provoca um senso crítico apurado. Buscamos discernir o justo e o correto, entretanto, a pior face do homem mostra-se presente e firme em cada esquina de nosso caminho. Em carne e osso.

Quem crê tem algo a que se apegar nos momentos de aflição ou desespero, enquanto o desprovido de fé pode fazer a única coisa que está ao seu alcance: valorizar o hoje. Não desperdiçar sua breve existência, e por mais que tenha consciência de que não existe uma segunda chance, acreditar que na vida a gente colhe o que se planta.

É possível demonstrar compaixão e amor ao próximo sem sermos doutrinados a crer nesta ou naquela religião, ao contrário do que muitos pensam, os descrentes embora não creiam na existência de divindades, nem por isso são adoradores de forças ocultas.

Dois pesos, duas medidas. A certeza não existe, e o preço que se paga ao tentar descobrir é um caminho sem respostas. O espírito se inquieta, mas a visão se aguça. Cabe a cada um refletir se esse preço é justo, considerando que a realidade de cada um só diz respeito a si mesmo.

Por tudo se morre, por pouco se vive. Não há certo, nem errado, e praticar o bem independe de crença ou religião. A vida seria muito mais fácil se vivêssemos de contos de fadas, mas até o mal nessas narrativas merecem perdão.

Game over

 

Não é preciso muita análise para reconhecer o quanto é difícil admitir quando algo nos afeta. Mais árduo ainda é olhar para dentro de si e compreender que nem tudo precisa ser levado tão a sério.

Vivemos em uma época em que está na moda praticar o desapego. A modernidade líquida citada por Bauman é seguida por muitos como se fosse uma religião, partido político ou time do coração.

Vivemos tempos líquidos, onde as relações escorrem como água por entre os dedos das mãos. Nada é feito para durar. Tudo é motivo para desapegar.

Sendo assim, num relacionamento moderno, o primeiro a demonstrar emoção é visto como o elemento frágil. E nessa disputa, o vencedor é aquele que não sente, que não se comove, nem se emociona.

Com isso, muitos usam escudos emocionais para não serem atingidos, recolhem-se em sua ordinária insígnia, e lá ficam, protegidos e inalcançáveis.

Estamos protegidos sim, mas a quê preço? As barreiras e muralhas que construímos ao redor para nossa segurança, no final de tudo, irão escancarar a nós mesmos que não estamos protegidos, mas sim, sozinhos do outro lado do muro.

Nada é mais exaustivo do que ter ao lado alguém que vive para se proteger de ataques imaginários. Cada momento junto é um dia de combate. As palavras têm que ser bem pensadas antes de serem ditas, uma vez que qualquer frase mal colocada será transformada num campo de batalha.

Quem está disposto a engatar um relacionamento, tem que se livrar desses joguinhos. Se não, as particularidades e o encanto do início se perderão em meio a tantos tiroteios.

O que antes causava borboletas no estômago e frio na barriga, depois de um tempo se tornam suspiros impacientes e eternas reviradas de olhos.

A paz só é possível de ser alcançada quando a comunicação flui com facilidade. E conversa no sentido mais legítimo da palavra, não indiretas e sarcasmos.

Tudo pode e deve ser mais simples. Bateu saudade? É só dizer. Não precisa se isolar até que o outro perceba a distância e decida fazer algo. Toda essa espera só irá aumentar a agonia e mandar para longe quem já estava ao seu lado.

Não é preciso toda essa artimanha, simplesmente faça o que tem vontade independente se isso pode te deixar numa situação de vulnerabilidade. Em tempos de desapego, quem ousa demonstrar os sentimentos é vanguardista, não fraco.

É hora de abandonar as munições, de sermos sinceros com nossos sentimentos e nos libertarmos das barreiras que construímos ao nosso redor. Sem joguinhos, sem obstáculos e, principalmente, sem transformar amores simples em missões impossíveis.

Seja a prioridade da sua vida

“Quando não se tem mais nada, não se perde nada”, já dizia Nando Reis em sua canção “Mantra”. Se olharmos ao nosso redor e nos perguntarmos o que é prioridade em nossas vidas, nós saberíamos responder com sinceridade?

Hoje em dia tudo que fazemos é pra ontem. As tarefas do trabalho, da faculdade, domésticas e os assuntos pessoais não podem esperar, tudo tem que ser resolvido com a máxima urgência, como se fosse um paciente internado na UTI e que os médicos lutam contra o tempo para salvar a sua vida.

E no meio de tantas obrigações, se não soubermos definir prioridades e o que é importante em nossas rotinas, viveremos para sempre com a sensação de que não estamos evoluindo, apenas mantendo nossa existência sem paixão, sem emoção, sem entusiasmo.

Todas as coisas e pessoas que fazem parte de nossas vidas têm exatamente o valor que damos a elas. Muitas vezes valorizamos demais assuntos que nem são tão significativos assim, e dessa forma, desperdiçamos nossas forças e energias em coisas irrisórias. Nós somos os únicos responsáveis por traçar nossas histórias e caminhos, e se não soubermos o que de fato é importante, sempre teremos dentro de nós a impressão de que nossas vidas são vazias, quando na verdade, o espaço que temos para preencher com coisas importantes, está ocupado com assuntos insignificantes.

Cada um de nós deveria elencar suas próprias prioridades, e não desejar aquelas que a sociedade tenta nos impor. Necessitamos administrar nossos anseios, nossos desejos, nossos sonhos. Nosso caminho só pode ser trilhado por nós mesmos. Quando abrimos mão de nossas preferências, corremos o risco de perdermos nossa essência, e de nos perdermos de vez.

O vazio que nos ocupa não deve ser ignorado, muitas vezes ele quer nos comunicar que os ruídos internos precisam ser ouvidos, e não mais desprezados.

Quantas vezes dizemos sim, quando gritamos por dentro não, e quantas outras vezes deixamos de lado nossas próprias necessidades e urgências, para socorrer as emergências de outras pessoas? Temos a capacidade de sair de nossa zona de conforto em auxílio de nossos amigos e familiares, mas não conseguimos empregar o mesmo esforço quando se trata de nossas próprias primazias.

Nossas vidas pessoais e profissionais só serão plenas quando estabelecermos o que é urgente, e o que pode ser resolvido com mais tempo, sem atropelos, nem sufocos. Mantenha sempre o foco no seu futuro, não se prenda ao passado, seus sonhos não estão lá. Procure não desviar sua atenção para os obstáculos menores, nem aborrecimentos aleatórios.

Além disso, estabelecer prazos irá lhe auxiliar no desempenho de cada etapa de seu projeto, pois quando você sabe quando e onde quer alcançar, cada passo será planejado em direção ao sucesso de seus planos.

Não desperdice tempo, nem energia ou esforço em assuntos insignificantes ou adiáveis. Seja livre: não dependa do exterior, as respostas estão dentro de você. Quando não se tem nada, não se perde nada. Eleja o seu e façam as pazes, você nunca o perderá mesmo.

A necessidade de ir embora

A geração atual é talvez a mais cheia de si que já existiu. As pessoas, de modo geral, se dão mais importância do que realmente significam. Acham-se as tais, os maiorais, e, muitas vezes, insubstituíveis.

São também acomodadas, abrigam-se atrás de uma tela de celular, protegidos sob seus perfis nas redes sociais, e vociferam aos quatro cantos suas opiniões sobre questões que não lhe dizem respeito, porém, não se arriscam, nem ousam em progressos para suas próprias vidas.

Adiam seus sonhos, permanecem em relacionamentos ou empregos enfadonhos, participam de grupos que não acrescentam nada em suas vidas, mas acreditam demasiadamente que sua presença é significativa e relevante demais para simplesmente irem embora.

Protelam o intercâmbio ou a mudança para outro país por preocupação excessiva. Antecipadamente inquietam-se com a saudade da família, com o rompimento de um namoro, ou a distância dos amigos.

É preciso olhar a situação de outro ângulo, com outra concepção: as dúvidas sempre existirão, aqui, na Ásia ou em Belo Horizonte. E se nos agarrarmos demais a elas, o tempo vai passar, e as oportunidades também. Nada é cem por cento garantido nesse mundo.

Uma lição que temos que aprender é que nem todo amor abrasador irá durar a vida inteira, que os amigos de verdade sempre estarão conosco, esteja onde estivermos. Que nossa família nunca deixará de nos amar, e sempre será nosso porto seguro. Então, às vezes, é necessário ir embora.

Ir embora é essencial para que alguns ensinamentos sejam assimilados. Que não somos assim tão importantes, e que a vida segue, com ou sem a gente por perto. Ninguém precisa de nós para continuar vivendo, nem nossa mãe, nem nosso pai, nem nosso companheiro(a), nem nosso chefe. E é libertador perceber isso.

É necessário ir embora para constatarmos que temos uma noção bem distorcida de nossa importância na vida alheia: não somos insubstituíveis, nem indispensáveis.

É necessário ir embora para que enxerguemos que, embora trocáveis, somos importantes também. Seja por cinco minutos, ou cinco anos, nossos amigos e famílias sentirão a nossa falta. E não é porque estamos longe que irão sentir mais ou menos, apenas irão sentir por mais tempo.

Não é porque fomos embora, que deixarão de nos amar. Sempre haverá aquele seleto grupo que lembrará de nosso aniversário, onde quer que a gente esteja, que sentirá saudades e que esboçará um sorriso quando pensar em nós.

Então, vamos embora. Embora do emprego que detestamos, do relacionamento que nos sufoca, do grupo de amigos que só nos procura quando convém. Embora da casa dos pais, da cidade, do país. Vamos embora da sala, por minutos, anos ou pela vida toda.

Coração pequeno não tem cura

É estranho imaginar que alguém acorde num dia qualquer, olhe pela janela, veja o céu ensolarado, e decida mudar de vida. Não uma mudança boa, como se matricular numa academia, iniciar uma nova graduação, ou sair do emprego insuportável.

Mas uma mudança brusca, inesperada, de abandonar a vida em comum com a pessoa que dorme já há algum tempo do seu lado, ou que compartilha o mesmo status num relacionamento sério nas redes sociais.

O mais comum nessas situações é, ao menor sinal de dúvida, acreditarmos e defendermos nossas escolhas, pois queremos ter acertado, sempre. Jamais ousamos contestar nossos desejos e predileções, principalmente num terreno tão delicado quanto é o dos sentimentos.

Mas a vida não é certa pra ninguém, e ela pode nos surpreender e nos invadir com incertezas e indecisões, e toda essa desordem pode se transformar em um cansaço emocional que se apropria de nosso ser. Já não temos mais certeza de que nossas escolhas são certeiras, de que nossos caminhos são lineares, ou de que estamos isentos de armadilhas. A estrada é sinuosa, e os atalhos duvidosos.

As forças se definham e os indícios de que as coisas não são mais serenas e pacíficas tomam conta de nossos pensamentos, esforços e rotina. Tudo agora é tempestade, os dias de calmaria parecem tão distantes de nosso alcance.

Questionamentos são feitos, palavras são discursadas, lágrimas brotam do canto dos olhos, embaçando até o mais lindo e ensolarado dia. Com medo da solidão, tentamos reverter tudo que nos desagrada, que nos incomoda e que nos adoece.  Parece muito mais fácil perdoar alguns pecados, do que correr o risco de amargar dias desertos.

Mas as cobranças não param, e elas tornam-se insustentáveis, e nenhum argumento é capaz de superar a constatação de que o amor, aquele sentimento tão nobre, grandioso e pleno, acabou. É hora de partir.

O silêncio diz muito, se não é com a rejeição que machuca, é com o vazio que consome. E nos aquietamos.

Parece que uma nova história de amor nunca mais estreará nas telas de nossas vidas, e que ser feliz sozinho, embora clichê, é o nosso destino. Mas esse adora nos pregar peças. E de repente, logo somos surpreendidos novamente.

E em meio a tantas coincidências e casualidades da vida, ao contrário do que planejamos, encontramos um outro alguém que nos desperta um sorriso no rosto a cada mensagem recebida, ou a cada pensamento inesperado.

Sem ter idéia do que fazer, esquecendo as regras, burlando as normas, e deixando as surpresas sobressaltarem. Vislumbrando um detalhe novo a cada encontro, descobrindo um sorriso novo, ou um olhar tenro a cada momento íntimo e secreto.

E se surpreender com a sua música preferida tocando no rádio coincidentemente (ou não), ou com alguém que abre a porta do carro sem parecer que o faz por obrigação ou presunção.

Que não usa relógios, que não te deixa sozinho na mesa para socializar em grupos pelo celular, que sabe conversar sobre qualquer assunto, e quando não souber, vai te ouvir falar, e se encantar com sua sabedoria, mesmo que você também não tenha idéia do que está falando.

Que faça com cada encontro esbarre no acaso, que tenha um detalhe marcante, e mesmo que o final não seja feliz, se esforce para recompensar no próximo.

Que não largue a sua mão quando estiverem juntos, que te abrace sem vergonha, que te faça inspirar todos os dias, e por vezes, te faça esquecer de soltar o ar. Que não permita que você tranque novamente a sua alma, nem se convença de que o amor acontece só uma vez na vida. Que sempre te motive a sair da zona de conforto, e que busque ser alguém melhor todos os dias.

Que seja eterno enquanto dure, e que dure o quanto bastar.

Questão de tempo

Os gregos utilizavam 3 termos para designar o tempo. Os modernos são reféns dele, usam relógio de pulso, mas conferem as horas em seus smartphones. O tempo é a medida do homem sobre os eventos naturais. No fim, são apenas ponteiros  se movendo em círculo, voltando sempre ao mesmo lugar.

A relação da humanidade com o tempo passou por diversas modificações ao longo dos anos. E o tempo das coisas sofreu uma mudança: hoje em dia tudo é instantâneo: nossa comida, nossa comunicação, as notícias que chegam aos montes a cada segundo, por todos os meios de informação existentes.

Procrastinamos nossa ida ao salão de beleza, ou ao consultório médico, pois conferimos mais importância às atividades do trabalho do que nossos assuntos pessoais. Isso quando não levamos trabalho pra casa.

Lemos um ou no máximo dois livros por ano, e dias depois de termos terminado a leitura, mal lembramos o nome do personagem principal. O mesmo acontece com os filmes, que não escolhemos mais pela sinopse, mas sim, pelo tempo de duração.

Nossas fotos são antigas segundos após sua captura. Temos câmeras cada vez menores e mais modernas para reproduzir as fotografias antigas do século passado. A moda atual é ser retrô. Usar óculos, xadrez e cachecol.

E mesmo com toda essa moda vintage, ainda assim ninguém quer envelhecer. Retocamos nossas fotos com photoshop, aplicamos botox em nossas faces e utilizamos as vagas para idosos reservadas para aqueles que tem pressa.

A nossa relação com o tempo mudou. São tantas as atividades e tarefas que temos que encaixar nas próximas vinte e quatro horas, que mal olhamos para quem dorme ao nosso lado. Ou para quem dorme no quarto ao lado.

Como quase tudo nessa vida, é preciso encontrar o equilíbrio. Podemos sim ser pais presentes, cônjuges amorosos e profissionais competentes; basta nos organizarmos. Planejamento é a palavra de ordem. É preciso definir as prioridades de cada área de nossa vida, e empregarmos nossa energia e nosso tempo exatamente nas atividades essenciais.

Todos dizem que o tempo é relativo, e de fato é mesmo, mas uma coisa é certa: ele passa. E se você não tomar as rédeas de sua vida, ela irá passar por você, e quando finalmente notar, você terá perdido momentos e pessoas importantes, mas você estava ocupado demais para perceber sua partida.

Trabalhe, estude, viaje com sua família, saia pra confraternizar com seu amigos. Assista seus filmes, leia seus livros, ouça suas músicas. Pode ser tudo ao mesmo tempo, desde que seja no seu tempo.

Se perder também é caminho

Ele escreveu adeus em um pedaço de papel e saiu. Fechou a porta e levou consigo todos os sonhos de uma vida inteira juntos.

Foi breve em sua despedida. Afinal, não dá pra se alongar muito em separações. Quanto mais demoradas, mais sofridas elas são. Quanto mais tempo tentamos justificar o injustificável, mais difícil é o momento de dizer adeus. Nunca estamos preparados para nos despedir.

Mas a vida, sábia como ela é, não nos consulta, nem pede conselhos. Ela simplesmente segue seu destino. Uns ficam, outros chegam, alguns se vão.

Ele teve que ir porque era tempo de ir. Era hora de guardar os bons momentos que viveram juntos, as histórias e recordações que sempre permanecerão em algum canto de sua memória e de seu coração.

Ele não avisou quando chegou. Não sentiu necessidade de comunicá-la de que ficaria por um longo período em sua vida. Ela não precisava preparar um café. Precisava preparar a casa toda para ele.

Mas na hora da partida, ele sentiu um desejo incontrolável de anunciar que era hora de ir. Precisava ouvir suas próprias palavras porque ele mesmo duvidava de seus pensamentos. Prometeu guardar o seu sorriso e seu olhar tímido no lugar mais impressionável de seu íntimo. As lembranças, embora nostálgicas, também seriam repletas de ternura e gratidão.

E ela aceitou em silêncio. Não porque era conformada ou ponderada, mas sim porque o grito que estava preso em sua garganta já urrava desalentado e aflito por todos os cantos da casa. As paredes já sabiam de seu desespero, pois ouviam noite após noite seu choro de desalento e angústia.

Anos e anos vivendo em uma relação segura e confortável, onde os sonhos todos tinham se aninhado e encontrado uma luz no fim do túnel de relacionamentos fracassados e despedaçados.

A relação esfarelou. Virou uma matéria fluida em uma liquidação de fundo de garagem onde os resquícios de um convívio sólido foram leiloados por alguns trocados.

A separação não teve remédio. Foi como uma doença terminal que vai se alastrando por todos os órgãos do corpo, enfermando até os pensamentos mais saudáveis e seguros.

Em suas orações diárias ela não pediu mais por uma reconciliação. Pediu apenas que pudesse assaltar-lhe as dúvidas e levar-lhe um par de certezas. Se em alguma esquina da vida um encontro casual acontecesse, ela aguardaria, em segredo, que ele sempre lhe tivesse serena.

Que o tempo passasse e amenizasse a dor da perda, que a ferida cicatrizasse e virasse uma marca em seu corpo de tantas marcas que foram deixadas em seu coração. Que o olhar brilhasse cada vez que essa história fosse contada, como brilham os olhos daqueles que guardam dentro de si uma fé que nunca adormece.

Que mesmo que as lágrimas teimassem em nascer aceleradas nos cantos dos olhos, elas se perderiam nos lábios que esboçariam um sorriso ao se lembrar de que tudo que aconteceu valeu a pena. E que viveriam tudo de novo, exatamente do mesmo jeito.

Ela aguarda sem pressa nem sofrimento que ele regresse de sua viagem. Confia que ele tenha que ir, para em breve, ficar de vez. Ver o mundo lá fora, conhecê-lo, decifrá-lo e devorá-lo, e no final de sua aventura, voltar pacífico e dormente para o lar.